sábado, 17 de julho de 2010

Crônica; "MDMA"



As visitas que eram diárias, foram tornando-se semanais, mensais e assim se perderam em uma escala maluca. Um dia ela entra apressada na mesma sala, para falar com ele mesmo.
Ela com a mesma roupa, branca. Ele com o mesmo sorriso no canto do rosto de quem um dia descobriu o segredo da vida e não contou para ninguém.

- Oi, como você está?
- Oi! Estou aqui acreditando que estou bem e você?
- Tudo bem, olha, a gente não pode continuar mais com isso.
- Ah! Você acha mesmo?
- Sim, eu não sei, já tem tempo que queria falar isso mas, sabe, já está indo longe demais e você...bom, você sabe.
- "Sim" e "não sei"? Já está se contradizendo...mas é, sempre sou eu.
- Não disse isso.
- Você sempre esta certa, não é? Quem sou eu aqui para discutir.
- É que é diferente...
- Eu não vejo diferença nenhuma...sempre quis você comigo.
- Lá fora é diferente...
- Você vive lá fora! Pra mim nunca existiu um 'lá fora'!
- Fica calmo!
- Depois te tantos clichês você quer que eu fique calmo!?
- Eu estou falando a verdade!
- Uuh! "A verdade está lá fora!"
- Não é hora pra brincadeiras...eu tô indo embora...
- É...quando eu apareci aqui você disse que era diferente, que eu não era igual aos outros.
- Tá, mas não é! E também porque eu gosto de você mas...eu to indo embora!
- Você volta?
- Não sei...não sei.
- Nem pra receitar nada? O que vai ser? O que vai acontecer?
- Tudo pode ser...nada vai acontecer, não tema...esse é o "reino da alegria".

Ela assina um papel na mesa e sai. Ele, mudo, muda o mesmo sorriso sem-graça para o outro canto da boca.
Ela fecha a porta e segue pelo imenso corredor. Na porta um quadro pendurado para fora com os dizeres:

'No. 31 - Leandro P. Siqueira - Hospital Psiquiátrico H. Kingdom'

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quinta-feira, 1 de julho de 2010

Palavras Antigas

Encontrei algumas palavras escritas em 2007, jogadas por ai, não vou dizer poemas nem nada, não sou poeta e nem tão pouco tenho métrica.
Mas está ai, engraçado, anos atrás...

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22/03/07

Bem vindo ao meu mundo
Aqui você pode baixar tudo , sem pagar nada
Pagar por mim , e não levar nada
Encontrar tudo e não achar nada
Correr no muro e cair da escada
Andar no escuro e bater com a cabeça
Não enlouqueça ...
Desapareça e não volte mais
Volte...
Vai... Me prenda, meio-a-meio
Me solta
Eu espero, quando você volta?
Que eu não consigo ser alegre o tempo inteiro...


-/-


28/03/07

'Encanto'

canto,
eu canto
ali, no canto,
sem encanto
por enquanto,
enquanto canto
todo pranto,
ali, no canto,
só eu e o canto

vai um pouquinho pra lá
aperta que dá
me dá um canto

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domingo, 30 de maio de 2010

Letra: "Atalho"



"Atalho"
(Phelipe Moreira / Daniel Pinheiro)


Ela deu 'Alt F4' no meu coração
Jogou na Lixeira minha emoção

Aperto o power da minha razão e deleto o que já não existe
O meu histórico você já viu e sabe que está no meu Favorito

Não quero 'Crontol-C' dessa relação
E nem 'Control-V' em outra aventura

Atualizar essa página velha, Control, Alt, Del na minha idéia
Alt e Tab, você sumiu, outra página então surgiu

Quando eu pluguei no seu, você não respondeu
Chamei atenção, você não leu
Agora o vírus já me corrompeu
E o que eu quero é um atalho seu

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quarta-feira, 26 de maio de 2010

Crônica; "Diários"


Londres, 20 de Janeiro de 2008

É, hoje foi um dia difícil e chuvoso. Ainda que bonito. Pensando em fatos e casos da vida e de outras pessoas, penso em escrever alguma coisa.
Nunca fui bom em escrever histórias. Resolvi escrever uma pra contar para ninguém.

"Ela era uma menina quieta demais pra quem tem tantos assuntos dentro da cabeça. Simples e com um olhar baixo, pensava na sua vida como quem pensa em uma coleção numerada de selos, ou discos. Tomava decisões como quem movia uma peça no xadrez sem tabuleiro.
Observava as pessoas atrás do vidro do caixa do pub em que trabalhava na baixa Londres. Em meio a notas, contas, cantadas e bêbados que pensava suas diferenças, empatias e simpatias em comum com elas. Pensava se alguma já passou por qualquer coisa que ela passara. Talvez, alguma dela mudaria sua vida? Talvez, não, nenhum Cavalo encontraria seu Rei sem as marcações do tabuleiro.
Ao final de cada expediente, Mary escrevia em seu diário tudo que pensava sobre cada fato, pessoa, ou situação. Passava conselhos, brincava com as diferenças atrás do escudo do seu desconhecimento das pessoas atrás da sua barreira de vidro. Espunha opiniões sobre os casais nas mesas, os homens de terno, os torcedores, os comediantes, os músicos, as divorciadas, os roqueiros, funcionários, ou qualquer um afogando seus desgostos em um pint de cerveja.
Seu diário era seu próprio pint de cerveja. Válvula de encontro pro seu escape.

Ali escrevia como era bom ser independente e poder escrever o que queria. Escrevia como se o mundo lê-se.
Desenhava tatuagens que um dia iria fazer, em meio a textos sobre música, amigos, a falta deles e de ninguém ao seu lado.
Certo dia, com medo de perder o último ônibus, escondeu seu diário embaixo do caixa, seguro, partiu pensando; "Ninguém vai ver..."

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Ele não sabia nem por onde começar. Aperta a válvula, vira o copo, corta a espuma? Ou vira o copo, aperta a válvula? Enfim, seu primeiro dia como garçon começava mal. Já se via conversando demais com os clientes sobre filosofias baratas, futebol e música velha.
Gostava de conversar, mesmo com sua vergonha, puxar conversa com o jovem garçon tornou-se rotineiro aquele dia para diversos clientes. O chefe o mandou para o caixa no periodo da tarde. Observando como um turista vislumbrado encontrou um diário.
Ao driblar sua honestidade com um chapéu na curiosidade, se encontrava lendo-o a 2 horas.
E durante dias, lia e esperava ansiosamente a 'edição' do dia seguinte. Ia embora sempre no começo do turno da noite.

Ela chegava rigorosamente no começo do turno da noite. Todos os dias notando seu diário fora do lugar da noite anterior.
Seu 'mundo' estava sendo lido. Resolveu testar, escreveu em seu diário; "Quem é você?"
Na próxima noite, ao abri-lo encontrou a resposta; "Eu sou o seu diário, oras!"
E assim foi durante, dias, meses, ela soube quem era ele, e ele, quem era ela. Se conheçeram, e o resto vocês já devem imaginar por conhecerem qualquer outra história glichê.
Trocaram os horários, trabalharam juntos, e tudo mais.

Passou um ano. E ela não trabalharia mais no pub. Não sabia como contar. Simplesmente sumiu.
Ele, continuou mesmo assim o diário que ela deixara para trás, rigorosamente, todas as noites. Mesmo ela não escrevendo mais enquanto estavam juntos. "Este diário é para pessoas sozinhas."
Agora fazia sentido pra ele escrever.

Ao final de um mês ela volta ao pub. Ele não está lá ainda. Abre o diário. Escreve alegre; - "Você ainda escreve aqui, mesmo?"

- "Sempre. Aonde você estava esse tempo todo?"
- "Lendo seu diário. Passo aqui todas as manhãs."
- "Esse diário é para pessoas sozinhas..."

Ela pegou o diário e voltou pela noite seguinte. Encontra-o trabalhando. Abre na seguinte página e mostra os dizeres a ele;
- "Você não vai precisar mais dele!"

Assim ela fecha seu diário..."


Tomara que ninguém leia.

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Sentado na beira da cama, apaga a luz, guarda a caneta, acende o abajur.
Lê o que acabara de escrever.

Assim ele fecha seu diário...

quinta-feira, 1 de abril de 2010

Efeito Borboleta



Circunstância
Substântivo;.
cir.cuns.tân.cia feminino (plural: circunstâncias)
Particularidade que acompanha algum fato; Acidente que atenua ou agrava; conjuntura, momento, ocasião; estado, condição; situação; caso; motivo, causa;
(figurativo) cerimônia, importância.

Qual a importância das circunstâncias de seus atos? Qual a importância de todas as particularidades geradas a partir da condição que você se encontrava quando elegeu o que seria melhor fazer, ou não fazer em qualquer momento de decisão? A ocasião pedia? E os motivos?

Será mesmo que o bater de asas de uma borboleta pode influenciar o curso natural das coisas, até um tufão do outro lado do planeta?
Entre a teoria do caos e livre arbítrio eu ainda fico mesmo com a liberdade de expressão.
Ela ainda me deixa livre pra seguir no caminho que escolhi, na paz, e na compania das pessoas de boa fé. A alegria e o sorriso ainda são mais importantes, e que assim eles sejam as circunstâncias dos meus atos pensados, ou inpensados.
Qualquer ato mal-interpretado por pessoas de má-fé ainda pode te transformar num palhaço...

Pensamentos levados pelo vento do oco da minha cuca ruim, rebatido pelas asas das borboletas na minha barriga pela euforia da empolgação do dia de amanha...

'Circus'-tance...

domingo, 21 de março de 2010

Conto; "Se segura malandro..."



O estagiário Artur andava pela rua, como sempre, apressado, com sua roupa social impecável e o cinto apertado acima da cintura para parecer mais magro e alto, seguia pro edifício onde trabalha na zona Sul de São Paulo, para diante da faixa de pedestre.
Sempre preocupado pelo atraso, resolve correr para atravessar mesmo com o sinal vermelho. Ao pular pela ultima faixa um motorista buzina e grita:
- Quer morrer jovem moleque! Tá louco!
Sem dar ouvidos, Artur entra no prédio e vai direto a sua sala, um recado sobre mesa diz que tem uma reunião marcada para dali 10 minutos, mas não dizia com quem e nem ele mesmo se recordava de ter marcado tal evento.
Passados os minutos, entra em sua sala um senhor, baixo, loiro-grisalho, de sorriso no rosto e simpático; Artur se prontifica no susto;
- Bom dia, sente-se, meu nome é...
- Artur! Eu sei! Bom dia!
- ..é Artur...nós já nos falamos antes?
- Hahaha! Claro que já, bom...muito prazer eu sou você, amanhã. Eu só não me apresentei antes por medo de desmotivar.

O sorriso de Artur some. A dúvida aparece em seu rosto como que crente que era uma brincadeira de alguém. Pergunta;

- Como assim? Você está brincando?
- Não! Olha pra mim, não pareço com você? Nossa voz só está mais grossa e envelhecida!

Artur nota a semelhança e tremendo, começa a acreditar. Mudo.

- Olha eu sei que é triste...mas não se deixe abalar! Você terá dias bons, cujo número eu posso contar...
- Calma, eu não estou triste! Mas, eu vou me tornar...você? Eu vou ser assim?
- Sim! Não vou mentir, na sua média você será...medíocre.
- Medíocre!? Você já está dizendo que eu não vou conseguir nada do que eu quero, nem fazer tudo que eu espero? Que minha vida vai ser uma...
- Mediocridade!
- Ah! Para o que você quer de verdade!?
- Que você aproveite!! Eu sei o quanto eu sinto saudade!
- Saudade do que? De ser eu?
- É! Saudade desse tempo, do tempo em que eu me achava esperto, do tempo em que eu esperava dar certo, do tempo que eu...me achava!

- E eu tenho que aproveitar mais então? Que ridículo...
- Exatamente! Você está vendo como vai ficar se continuar assim, olha, não quero te iludir, não quero te enganar...mas você está desperdiçando o que era pouco, muito pouco, quase nada!
- ...
- E está para acabar, viu? A-ca-bar!

O homem sai, e antes de fechar a porta da sua sala diz;
- Você quer morrer jovem? Se segura malandro...

(...)

Artur abre os olhos e olha para a cabeçeira, o radio-relógio indica, Segunda-feira, 8 de Março de 2010, 6:30 da manhã.
- Saco! Tô atrasado!

-//-

Conto inspirado por e adaptado da música "Esquilo Não Samba" de Leonardo Bursztyn, para o 'Móveis Coloniais de Acaju' .

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

Como conheci sua mãe



"Crianças, o florescer de um romance é lindo. Você conhece alguém, estabelece uma conexão com essa pessoa, e quando você menos espera ela torna-se uma perfeição diante dos seus olhos. Não consegue encontrar nenhum defeito nela. E mal pode esperar para contar a todos sobre ela..."
O resto, acho que todo mundo já sabe...
É com esse trecho do roteiro de Craig Thomas para a série "How I Met Your Mother" que me deparo pensando realmente no ínicio, no meio e no fim das coisas.
Quero que no fim eu possa sentar com meus filhos e contar como conheci a mãe deles.
Mas, o mais importante não será como, quando e onde, e sim todas as histórias que levam a tal fato.
Passamos a vida inteira procurando, ou não, certas pessoas nasceram para viverem sozinhas, alguém que será a utópica 'alma-gêmea', e nem assim se tem certeza disso, caso contrário não existiriam divórcios.
Não vamos entrar nesse assunto, o que quero é parar pra contar tudo que fiz, deixei de fazer, ou vi acontecer enquanto esperava. Acho que todos deveríamos fazer o mesmo, que mesmo atrasados, devemos esperar sim, por toda nossa vida, já dizia Oscar Wilde.
O mais legal e importante é como que aprendemos sobre o amor, tudo no tapa, na marra, e a vida nos mostra com muitos socos na boca! Mesmo contando e alertando nossos filhos eles vão ser nocauteados.
Não importa, quero contar as viagens, as histórias, as mancadas, as recaidas, os romances, os carnavais, as ciladas e tudo mais até como conheci tal pessoa.
E você? O que vai contar para os seus filhos?